Um bocado de coisa

Aquela carta

Publicado por: Lidiane em: 03/09/2010

Tempos atrás li um texto numa dessas revistas de mulherzinha falando sobre as relações patrão x empregado, mais especificamente patrão x empregada. O texto era na verdade uma carta que a empregada escrevia ao seu chefe em determinada situação de desagrado e coincidiu em quase tudo com o que eu gostaria de dizer ao meu chefe. Na época eu havia largado um ótimo emprego por conta de uma proposta mais valorosa, pelo menos eu julguei que fosse. Mas não é sobre isso que quero escrever, quero falar sobre a tal carta. A carta que me inspirou e que não foi nunca entregue e que eu corri o mundo a buscar pra colocar aqui já que, se deus quiser, eu nunca mais serei sua subordinada.

Meu (quase) querido chefe:

Passa das 20:00h, quase todos já foram embora e continuo sentada na recepção. Aguardo o seu retorno daquela “saidinha rápida” que, às 17 e uns trocados, você disse que daria. O seu caseiro espera e, claro, tenho de esperar com ele, pois me foi dada a missão de não deixá-lo sozinho na recepção – mesmo que eu tenha sido contratada para trabalhar no CEDOC. Diante da sua demora para resolver o que quer que seja com ele, só posso imaginar que você sofreu um AVC e está, neste momento, entre a vida e a morte na UTI do Hospital. Prefiro acreditar nessa explicação que na outra, aquela que me diz que você não tem um pingo de respeito por seus funcionários.

Felizmente, essa demora me deu tempo também para esfriar a cabeça e chegar à seguinte conclusão: se lá atrás eu dissesse que interpretei essa e outras tantas posturas suas como desrespeito, talvez elas não tivessem se repetido. Por isso me acomodei ao conforto da cadeira da recepção e aproveito a tranqüilidade da empresa semi-vazia para escrever esta carta-desabafo-compromisso, cujo título poderia ser: “Hellooo! Não estou feliz com suas atitudes!” Eu seria sincera se entregasse pessoalmente, não acha? Mas camicase também. Afinal, a partir do momento em que você começasse a ler estas linhas, minha sorte estaria lançada. Poderia muito bem ir parar na longa lista negra de demitidos, que foi grande nos últimos dias. Ou as minhas palavras na sua consciência. Se eu der sorte de essa carta chegar, seja lá como for, na sua mão, tenho uma chance de fazê-lo refletir.

É que preciso lavar a alma – ou vou continuar tendo pesadelos com você. Não é exagero, não! Vivo encontrando sua excelentíssima pessoa nos meus devaneios noturnos: num deles, parecia o mostro do lago de lama (e eu me afundava naquele mar marrom). Eles acontecem quando minha rotina vira um caos total por causa de suas ordens conflitantes somadas à falta de estrutura da empresa para aportar um arquivo decente, suas críticas sem fundamento, suas grosserias sem razão plausível e seu hábito de descer do alto do seu posto de chefe e empresário para se envolver em intrigas e fofocas de funcionários suspeitos. Tá bom, essa parte combina mais com sua sócia do que com você, mas vá lá. Hoje, por exemplo, minha noite será agitada. Pois, quando amanhã você aparecer na empresa, provavelmente agirá como se nada tivesse acontecido e eu não fizesse nada além de minha obrigação.

Por que continuo agüentando isso? Boa pergunta. Que já me fiz trilhões de vezes. Primeiro, é claro, existe o fato de que emprego não está dando sopa por aí e, grávida, minha situação se agrava ainda mais. Segundo: sempre gostei de trabalhar na área e gosto de trabalhar aqui. Tanto que acabei me descuidando da minha lista de contatos, como se não fosse mais precisar deles. Agora, estou tentando atualizar os telefones perdidos e recuperar os e-mails, o que leva tempo. Durante o tempo que agüentei calada (por submissão, comodismo ou medo mesmo), alimentei a esperança de que você fosse mudar por conta própria. Doce ilusão. Que já azedou. E está me fazendo ficar uma mulher amarga que só sabe reclamar, reclamar, reclamar. O que tem feito mal ao meu bebê. Já consegui até transformar a happy hour com os amigos numa depre-terapia. Aí vai a lista de defeitos que vejo em você. Que todo mundo vê. Ou nunca reparou como mudam de assunto quando põe sua cara no café? Preparado?

- Você se acha o dono da verdade.

- Está crente que ninguém faz nada direito se não estiver lá, pressionando todo mundo.

- Desconhece o que seja empatia.

- Não teve palavra com a proposta salarial que me fez.

- Aceita trabalhos para ontem e faz seus funcionários virarem a madrugada e trabalharem no fim de semana (sem hora extra). Não sei se é para mostrar quem manda ou porque não percebe que existe vida além da empresa.

- Confunde chefiar com dar ordens.

- Usa dois pesos e duas medidas: para a sua panelinha, tudo; para os outros, chicote!

- Não dá força aos seus subordinados: se depender de você, vamos envelhecer e pedir aposentadoria sem receber um mísero aumento ou bonificação e, no entanto, todo ano você faz o seu passeio pelos EUA.

- Quando cobra que a gente vista a camisa da empresa, o que quer mesmo é dedicação 24 horas por dia às suas necessidades.

- Tem a capacidade maligna de colocar seus funcionários uns contra os outros (e faz sua empresa pagar o pato por isso, pois perde bons funcionários).

- Sempre nos paga com um ou dois dias de atraso (às vezes mais) e nos faz assinar recibo do dia 05. Aposto um ano de salário que você não passa um único dia sem cinqüenta reais no bolso e, portanto, não tem a menor idéia dos transtornos que um ou dois dias de atraso fazem em nossas finanças familiares.

Qualidades? Diz um dos livros que comprei que todos os chefes estão cheios de talentos ou não teriam chegado lá – é só uma que questão de saber procurar. No seu caso, eles devem ficar mais escondidos do que o lado oculto da Lua! Não disse que estou amarga? E não se trata de TPM, posto o resultado positivo do meu BHCG. É uma crise constante que só melhora no dia do pagamento… Er… Quer dizer, no dia em que a grana chega a minhas mãos. O que não refresca, porque meu ideal não é trabalhar por dinheiro exclusivamente. Acho muito gratificante ter um chefe que transmita conhecimentos e experiência, seja uma espécie de inspiração para vôos mais altos. Mas você desenvolveu em mim uma insegurança braba, depois uma frustração e finalmente inconformismo. Superei essas duas primeiras fases. Só não abro mão de algum dia ver você reconhecer suas pisadas na boa.

A partir de hoje, pode ter certeza de que esta sua funcionária não fará nada apenas para agradá-lo ou só porque você mandou, e ordem não se discute. Vou negociar. Não tenho a intenção de me tornar o seu tipo inesquecível. Se bem que adoraria saber que este desabafo se tornou um marco na sua vida. Uma coisa do tipo a.C./d.C., ou seja, antes e depois da carta da Lidiane, se é que você me entende. Pretensão demais? Vai ver que sim. Sou uma ambiciosa assumida e cheia de ideais. Um deles: no dia em que chefiar uma equipe, quero ser uma boa líder. Seja por ter aprendido como um chefe não deve ser, seja por ter, enfim, conseguido ver sua lista de qualidades aumentar, aumentar, aumentar… e desejar, sinceramente, me espelhar em você.

Até amanhã (ou não – você decide).

2 Respostas para "Aquela carta"

Ainda bem q só tenho chefes ma-ra-vi-lho-sos ¬¬

Ah, hoje em dia, eu também! (L)

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

Os dias

setembro 2010
S T Q Q S S D
« ago    
 12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
27282930  

Retratinhos

Tv Norte Indepedente

Tv Norte Indepedente

Tv Norte Indepedente

Tv Norte Indepedente

More Photos

Consolo na Praia

Vamos, não chores.
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis carro, navio, terra.
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humour?

A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.

[Carlos Drummond de Andrade]

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.